
Gula: a afinidade animal e o pecado capital, e vice-versa.
Acabo de comer uma pizza doce, programa ímpar para um domingo. Após meu jantar, lembrei de um livro. Bom, acho que as palavras que seguem explicam melhor. Boa sorte, caro leitor!
A Coleção Plenos Pecados aborda os sete pecados capitais: soberba, luxúria, gula, ira, inveja, preguiça, avareza. Em questão -“O Clube dos Anjos- livro de Luís Fernando Veríssimo, que retrata a história de dez homens que se entregam a fome em bando, sem temer a morte. Em alusões ao Catolicismo, Veríssimo carrega em seu livro o profano e o sagrado, trazendo aspectos religiosos e o desejo para uma mesma plataforma.
Em 140 páginas, o livro consegue ser enigmático, intrigante e desejável ao mesmo tempo, provocando uma mistura de sentimentos em seu leitor – ora os personagens são julgados, ora são totalmente compreendidos. O objetivo talvez seja exatamente esse: será o desejo uma forma de expressão humana intrínseca do ser, ou quem sabe um pecado que condena essa fraqueza humana?
A história gira em torno da busca do prazer por meio da sensação, mais especificamente do paladar. Alegando que os demais órgãos sensitivos se vão ao decorrer da vida e do tempo, o autor afirma em letras garrafais: a fome é eterna e o desejo é um desejo de morte. Nessa perspectiva, os personagens se constroem e se destroem, constantemente. A primeira ação se dá pela lembrança da infância de cada um que compõe o grupo, as histórias das namoradas, festas, encontros, amizade. Já a segunda, a pura e simples degradação do ser pela tentação, fato que os levam a uma morte silenciosa, porém esperada.
Apenas homens, de classe média-alta, nada sucedidos com os seus próprios negócios e talentos (o pintor que não é um artista nato, o escritor que não vê suas habilidades, ou desperdiça a mesma...), inteligentes e que não encontram a mulher ideal: Ramos, Samuel, Saulo, Daniel, Marcus, Thiago, Abel, Pedro, Paulo e André. Em princípio, o encontro era gastronômico, momentos para bons vinhos, charutos, papos de homem. No entanto, com a morte de um dos integrantes, Ramos, as reuniões foram abaladas e a graça se perdeu em meio às quiches e chocolates.
Ironia do destino, ou acaso, o narrador, Daniel na história de Veríssimo, conhece Lucídio em um dia qualquer. Fazendo uma possível menção ao Lúcifer, o personagem que acaba de entrar na história é a perfeita tentação no grupo. Ele demonstra o reflexo do autor, o qual se confunde constantemente na história: será assassino o próprio autor, ou Lucídio é o responsável pelas mortes do grupo?
Em “O Clube dos Anjos” há uma discussão filosófica do Veríssimo: a criação de Lucídio é de sua responsabilidade, e criar um personagem com tais características é se culpar da morte de todos os demais. Tal discussão faz o leitor sair do senso-comum de todo e qualquer livro policial, do ponto de partida já se sabe quem é o assassino, e ele se confunde com o próprio autor do livro, aquele quem o deu vida. Luis Fernando Veríssimo afirma em suas primeiras páginas, que todos nós matamos em pensamento, mas o colocar o crime no papel é realmente efetuar um crime, e isso é pura e simplesmente responsabilidade do autor. Sim, Lucídio estava criado, e em torno dele que se dá a trama.
De um gosto requintado, olhares misteriosos, um sorriso “amarelo”, o Lúcifer da história consegue reavivar o espírito do grupo e o desejo incontrolável por aquilo que se tritura, se mastiga e se acaba – a destruição do objeto que fornece o prazer. O cozinheiro de viés francês participava de uma reunião com um grupo japonês, onde em busca do prazer degustava um raríssimo peixe venenoso. O objetivo: saborear a preciosidade e temer a morte, ao mesmo tempo. Veríssimo deixa na cara do leitor o que acontecerá com o Clube do Picadinho, nome dado ao grupo de Daniel. Lucídio trará sua prática oriental ao encontro gastronômico dos rapazes.
O fato de não deixar nada implícito ao leitor remete a mais curiosidade ainda, à medida que os jantares acontecem é notório que mais alguém morrerá, mas pensar no que o desejo representa na vida humana instiga a leitura. Fazendo uma alusão com a Bíblia, o primeiro a morrer foi Abel, e na seqüência, André. A escolha da vítima, ou do satisfeito (como demonstra no livro) parece ser em ordem alfabética. No entanto, o convite à morte não muda em nenhum dos casos, fato que faz com que o leitor também já premedite quem é o integrante da vez. O prato predileto do “escolhido” é feito, todos jantam, se divertem, fazem brindes e se deliciam, mas resta sempre apenas uma porção para ser repetida. Quem sempre aceita é o destinatário do jantar. Gula, veneno, morte.
Essa seqüência obedecida e repetição dos fatos parece ser realizada propositalmente, o leitor já sabe quem vai morrer, e o degustador espera a sua morte. E o prazer é construído exatamente nesse ponto: a morte acentua o gosto do que se come, e saber o dia do seu fim é tornar-se ativo, não mais passivo, como de costume. Lucídio, Veríssimo ou até mesmo Daniel, quem integrou o cozinheiro ao grupo, não importa. Se for analisado, não há um assassino de fato, quem morre não é vítima de alguém, mas de sua aspiração: todo desejo é um desejo de morte.
Da capa à última frase, o livro é provocante – são tons de vermelho, pecados, desejos, sedução. E o leitor busca os seus anseios e vontades em meio às instigantes comparações e deliciosos banquetes. Um prato cheio.